sexta-feira, 20 de novembro de 2009

AO LONGO DOS TEMPOS...

Ao longo dos tempos, numa história dispersa na diversidade dos caminhos tomados, o conhecimento foi sempre transmitido ao homem gradualmente, acompanhando o crescimento espiritual dos povos e a compreensão que estes foram fazendo do mundo que os cercava. Da mesma forma que um professor discrimina o conhecimento que possui consoante os alunos que tem diante si, ensinando contas de somar a uma criança da primária e integrais a um aluno da universidade, as entidades espirituais, e outros seres que sempre nos acompanharam, também condicionaram esse conhecimento ao grau de amadurecimento da própria humanidade. No princípio, e falo essencialmente da cultura Judaico-Cristã, pois as outras pertencem a escolas diferentes, embora integradas num todo coerente, esses ensinamentos tinham como função criar as bases de uma sociedade ordenada e civilizada, tendo a forma de leis e mandamentos que ajudassem na maturação desse povo. Muitas dessas leis parecem-nos hoje absurdas e descabidas, mas não as podemos deslocar do seu tempo. Um adulto também considerará muitas das histórias que lhe foram ensinadas enquanto criança como sendo absurdas, mas elas tiveram a sua importância na solidificação de uma identidade que sem essas histórias poderia ficar privada de muitas das suas ferramentas. Aquilo que foi apresentado a esse povo era apenas o somar das contas que a criança aprende a efectuar, as bases para cálculos mais elaborados que um dia esta viria a realizar enquanto aluno da universidade. Tempos depois, após todas essas leis se terem enraizado profundamente na cultura desse povo, novos passos foram dados na crescente espiritualização do homem. Com a vinda de Cristo outros ensinamentos puderam ser mostrados, pois aquele povo já estava preparado e afinado com um determinado tipo de realidade que não aquela que foi revelada no velho testamento. Deus podia agora ser visto sem algumas das suas máscaras. Para muitos foi um choque, pois esperavam ver em Cristo um líder que os ajudasse numa vitória contra os Romanos, uma extensão desse Deus dos exércitos que até então tinha predominado sobre uma mentalidade ainda pouco espiritual. Mas Cristo trouxe uma outra realidade: um Deus de amor. Um Deus que em vez de lutar contra os inimigos do seu povo, pedia para que os amassem. Era uma nova linguagem, ainda não ao alcance de todos. Uma linguagem que permitiu àquele povo dar novos paços na sua espiritualização. Mas Cristo apenas falou daquilo que as pessoas de então podiam compreender, não revelando a verdade por inteiro. Assuntos como a reencarnação e o mundo dos espíritos estavam reservados para mais tarde; para o período em que essa criança, feita adolescente, se encontrasse em anos mais avançados, podendo, desse modo, compreender melhor tais realidades. Embora Cristo tenha-se referido à reencarnação quando falou de João Baptista como sendo o profeta Elias, e tenha mostrado essa outra realidade espiritual quando se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João, aparecendo ao lado de Moisés e Elias, nunca chegou verdadeiramente a aprofundar esses assuntos, pois se o fizesse, poucos seriam aqueles que o poderiam compreender; algo bem evidenciado na conversa que ele teve com Nicodemos ao tentar instrui-lo acerca do novo nascimento, dizendo-lhe: “Na verdade, na verdade te digo que, aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus” Ao que Nicodemos não compreendendo, perguntou-lhe: “Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer?” (S. João: 3, 3-4).
A humanidade estava agora numa fase intermédia, mas ainda não na sua idade madura. Mais tarde, muitos séculos depois, a doutrina Cristã pôde finalmente ser acrescentada com outras realidades, pois a humanidade já tinha desenvolvido, não só as palavras, como a plasticidade mental para compreender outro tipo de conhecimento. E assim surgiu a doutrina Espírita que, embora tenha como base os ensinamentos de Cristo, trouxe uma outra dimensão que até então era domínio da superstição. A Allan Kardec foi transmitido aquilo que Cristo não pôde revelar, mas que agora já podia ser dado a conhecer ao homem. A partir dos contactos que este estabeleceu com alguns espíritos esclarecidos, uma nova doutrina pôde ser revelada e um novo passo foi dado na crescente espiritualização da humanidade. Mas também aqui apenas foi mostrado aquilo que o homem de então podia compreender, pois se os espíritos tivessem falado de outras realidades, de tudo aquilo que hoje já pode ser mostrado, nunca a doutrina Espírita se teria desenvolvido, pois seria difícil para as pessoas compreenderem algo que as transcendiam numa espiritualidade ainda não completamente desenvolvida. Algo bem evidenciado em algumas das respostas que um espírito deu a Kardec no seu Livro dos Espíritos quando este lhe perguntou: (182) “É-nos possível conhecer exactamente o estado físico e moral dos diferentes mundos?” Ao que o Espírito respondeu: “Nós, Espíritos, só podemos responder de acordo com o grau de adiantamento em que vos achais...” E mais à frente, numa nova pergunta: (628) “Por que a verdade não foi sempre posta ao alcance de toda a gente?” Resposta: “Importa que cada coisa venha a seu tempo. A verdade é como a luz: o homem precisa habituar-se a ela, pouco a pouco; do contrário, fica deslumbrado.” Hoje já tudo pode ser mostrado sem as máscaras do passado, embora muitas dessas realidades sejam, ainda, difíceis de compreender. Já temos, no entanto, as ferramentas necessárias para trabalhar esse conhecimento.
Nos próximos textos irei abordar alguns desses temas polémicos. Devem, no entanto, interpretar tais textos como simples histórias. Nada vos quero impor na partilha que irei fazer desse conhecimento que apenas o será se cada um de vocês assim o entender, e por isso mesmo não irei apresentá-los como sendo a verdade. Para já são apenas isso mesmo: histórias que partilho convosco e que cada um deverá interpretar em si mesmo.

domingo, 1 de novembro de 2009

UMA GOTA FEITA OCEANO

Do vasto oceano uma pequena gota destacou-se do todo, deixando o leito único de uma consciência que ela personificava na unidade de todas as coisas. Subiu depois até uma nuvem que a transportou a uma montanha de arribas escarpadas onde a pequena gota caiu sobre a forma de chuva, despertando na nascente da serra. E ali foi o princípio. Ignorando a sua existência anterior, a gota julgou ter nascido na montanha. Por momentos, enquanto saltitava nas pedras arredondadas da cascata, nada compreendeu do lugar onde se encontrava, até que desaguou nas águas calmas de um pequeno lago. Aquele era um lugar de grande paz e harmonia. A primeira morada do espírito e das almas contrárias que lhe dão expressão. No princípio, na inocência de quem acabou de nascer, a pequena gota julgou que a vida era toda ela um paraíso; que aprender era ficar nas águas calmas do lago onde nada lhe faltava, pois tudo era criado à sua imagem. Mas um dia alguém disse-lhe que teria que deixar aquele mundo de paz e encarnar num outro mundo mais difícil onde iria aprender muitas das lições da vida. A pequena gota ficou satisfeita com aquele novo desafio, julgando que tudo não passaria de um jogo, de uma brincadeira; quão inocente era, ainda, a nossa pequena gota. E assim foi lançada na corrente do riacho, deixando as águas calmas do lago. A sua primeira vida no mundo físico acabou por não correr muito bem. Foi uma vida difícil, repleta de sofrimento, onde praticou todo o tipo de barbaridades em nome da sua própria ignorância. Quando regressou, fê-lo de cabeça baixa tão envergonhada que estava da vida que tinha levado. Pensou que fossem recebê-la de dedo estendido e olhar inquiridor, pois muitos foram os erros que tinha cometido, mas não... todos receberam-na de braços abertos, de sorriso no rosto por terem de volta aquela que era como um irmão. Ainda perguntou se iria ser julgada, confusa que estava com a recepção, ao que o seu guia lhe respondeu que sim mas não por eles. Pensou logo na imagem de um juiz carrancudo e prepotente e da pena pesada que certamente iria impor sobre os seus pecados. Mas logo esqueceu tudo isso, integrando-se plenamente nos afazeres da comunidade. Um dia, um dos vigilantes que acompanhava o grupo onde a pequena gota estava integrada, e que era um ser muito mais evoluído que ela, disse-lhe que tinha chegado o momento de regressar. Para ela foi um choque. Agora que conhecia a turbulência da corrente do riacho, não queria mais deixar as águas calmas do lago. Respondeu que não iria regressar a esse mundo, que preferia viver ali onde tudo era perfeito. Ele, de expressão serena e compassiva, explicou-lhe que não era obrigada a partir, que essa era uma escolha sua. E assim ficou naquele lugar, satisfeita por saber que, se a escolha era sua, nunca mais iria regressar a esse mundo violento. Mas com o passar do tempo, e de todas as vezes que visionava as imagens dessa sua vida no mundo físico, começoua apontar os erros e os defeitos. Dizia para si mesma que se um dia regressasse iria tentar corrigir aquela falha, tentar superar aquele obstáculo. E foi só então que a pequena gota compreendeu que o juiz não era nenhum ser prepotente, mas ela própria. Esse era o verdadeiro julgamento: aquele que ela impunha sobre si mesmo. Procurou de imediato o vigilante, dizendo-lhe que estava disposta a encarnar para corrigir os erros do passado. Ele ficou satisfeito, e logo prepararam a sua nova experiência no mundo físico. Mas esta também foi uma vida difícil para a nossa pequena gota. Uma vida cheia de obstáculos que não conseguiu transpor. Tornou-se comerciante de escravos nesse mundo de ódios, desprezando esses seres que considerava inferiores. Quando regressou, trazia nos ombros um peso tão grande que impossibilitou que se integrasse plenamente no seu grupo. Eles tentavam animá-la; diziam-lhe que era natural cometer erros no mundo físico... mas ela preferia a solidão, meditando sobre uma vida onde nada tinha aprendido. Não conseguia suportar aquele peso que tornava difícil a sua integração no grupo e naquele lugar de paz. Quando o vigilante, que era o seu guia espiritual, propôs-lhe uma nova vida no mundo físico, a pequena gota não hesitou um único momento em aceitar tal proposta. Queria encarnar como escravo e desse modo libertar-se do peso que tornava insuportável viver naquele lugar de paz. E assim, por vontade sua, sem que ninguém lhe impusesse tal escolha, encarnou como escravo, vivendo tudo aquilo que em tempos desprezara. Foi uma vida muito difícil, mas libertadora. Quando regressou vinha leve e feliz. Tudo à sua volta assumiu novas cores, possibilitando que se integrasse plenamente no grupo. Depois sucederam-se muitas outras vidas numa cadência de milénios, umas melhores, outras piores, dando-lhe a oportunidade de crescer na sua espiritualidade. Quando se adiantava em relação aos restantes membros do grupo, era integrada noutros grupos mais evoluídos até ao dia em que também ela se tornou vigilante de um grupo acabado de ser formado. Quando se graduou nas lições do mundo físico, assumiu novos caminhos. Tornou-se aluna de uma outra escola, aprendendo a arte de criar vida no universo. No princípio manipulava a vida apenas ao nível celular, criando organismos simples, mas depois, numa sucessão de experiências e num amadurecimento crescente, tornou-se criadora de povos, de raças. Mais tarde, cada vez mais próxima do oceano nessa caminhada rio abaixo, criou planetas, estrelas, sistemas solares, galáxias. E um dia, já muito perto da foz do rio que se precipitava nas águas do oceano, essa gota, agora grande de sabedoria e experiência, criou universos à sua imagem e semelhança. E só então penetrou na imensidade do oceano, regressando ao lugar de onde partira. No princípio era uma pequena gota acabada de surgir na nascente da montanha, inocente e ignorante, mas agora era grande; agora era o oceano por inteiro... E do vasto oceano uma nova gota destacou-se do todo, deixando o leito único de uma consciência que ela personificava na unidade de todas as coisas. Subiu depois até uma nuvem que a transportou a uma montanha de arribas escarpadas onde a pequena gota caiu sobre a forma de chuva, despertando na nascente da serra. E ali foi o princípio...

sábado, 24 de outubro de 2009

UMA CRIANÇA QUE SE FEZ ADULTO

Num lugar algures dentro de todos nós, existia uma pequena criança fechada entre quatro paredes de uma sala, entretida com os seus brinquedos que eram a única realidade que ela conhecia. A sala onde brincava era como um mundo onde experimentava os primeiros passos, onde dava as primeiras quedas, onde construía e destruía os castelos feitos de peças. Ali, entretida nas brincadeiras que ela julgava serem a única realidade, vivia esquecida do mundo que envolvia essa sala iluminada por uma luz de candeeiro, fechada entre janelas trancadas e portas lacradas. Mas um dia, as janelas dessa sala abriram-se diante dos seus olhos esbugalhados. Ela, deslumbrada com a luz que vinha de fora, largou todos brinquedos, caminhando timidamente até junto da janela que lhe revelou um novo mundo. Pela primeira vez sentiu o conforto do sol no seu rosto, a brisa suave nos seus cabelos soltos; observou as árvores que se curvavam na suavidade do vento que nelas se tornava presente, a frescura das plantas no colorido luminoso do orvalho constante, a beleza única de um lugar alimentado pelo brilho prateado de um ribeiro de águas ternas, pela paz uníssona das melodias que lhe chegavam vindas de todo o lado. E quando as portas lacradas se abriram, ela partiu de braços abertos sobre a erva-fina e aparada, correndo atrás das borboletas, dos pássaros que dela não fugiam, da beleza única de um lugar tão especial. Para trás deixou todos os brinquedos, fundindo-se com a natureza daquele lugar que sempre esteve junto de si, mas que ela ignorava por viver fechada entre quatro paredes; entretida com os seus jogos, com as suas brincadeiras, com as suas construções e realizações tão inocentes. Um dia, depois de se tornar adulta, essa criança, que deixou de o ser, regressou à mesma sala. Num baú colocou todos os brinquedos, abrindo as janelas e as portas; deixando que a luz do sol iluminasse cada recanto daquele lugar em tempos fechado. A partir de então não mais as janelas se trancaram nem as portas se lacraram. Os dois mundos tornaram-se um só, e essa criança, que já não o era, pode finalmente iniciar a construção de uma existência não mais limitada pelas quatro paredes que a escondiam do mundo, mas aberta num horizonte vasto que lhe ensinou que tanto a sala como o lugar que a envolvia eram partes unificadas de uma só realidade.

sábado, 17 de outubro de 2009

ONDE SE SITUA O MUNDO ESPIRITUAL?


Introdução

Este é um texto que escrevi há uns tempos atrás a pensar em todos aqueles que são cépticos em relação a estas coisas da espiritualidade, não com a intenção de convencer quem quer que seja, até porque aquilo que irão ler é unicamente uma teoria, e as teorias são apenas isso mesmo: conjecturas que se fazem em volta de um determinado assunto; simples hipóteses, deduções, nada de concreto até que seja demonstrado por métodos experimentais. Não tenho, por isso mesmo, a pretensão de fazer desta teoria algo de sério, e muito menos de usá-la para justificar o que quer que seja. Para mim é apenas um jogo de palavras e de conceitos mais ou menos científicos, e nada mais que isso. Recorro a esta linguagem para tentar mostrar àqueles que sempre tiveram a existência de um mundo espiritual como algo de abstracto dentro do nosso universo, que é possível encontrar um lugar onde posicionar esse mundo sem entrar em contradição com um pensamento racional e científico, embora este tipo de considerações sejam completamente irrelevantes para quem acredita na existência de tal lugar, pois acreditar no mundo espiritual é tê-lo como verdadeiro unicamente na compreensão interior dessa realidade, e não nas explicações teóricas ou científicas que se façam em volta da mesma. Desse modo, e sublinho este ponto para que não seja mal interpretado, aquilo que irão ler não é tentativa de justificar o que quer que seja, mas apenas uma abordagem diferente para aqueles que têm, também eles, uma linguagem diferente.

Onde se situa o mundo espiritual?

Essa é uma pergunta que sempre confundiu as pessoas, principalmente aqueles que procuraram, na compreensão de tal realidade, uma explicação que fosse científica e racional. Embora a ideia de um mundo espiritual não possa ser reduzida a um pensamento puramente científico, podemos tentar abordar o tema numa linguagem que, não sendo, poderá aproximar-se dessa visão científica. Ao longo dos séculos as pessoas tentaram conceber a ideia de um lugar puramente espiritual que seria a morada das almas, ou do espírito, que embora sejam coisas distintas, podemos tomá-las por iguais para não complicar a presente exposição. Para muitos esse lugar era o paraíso, um espaço partilhado por todos aqueles que tinham alcançado um determinado patamar. Mas esse era um lugar difícil de posicionar no nosso universo material, pois onde estaria esse espaço espiritual? Posicionar o mundo espiritual num lugar físico seria destitui-lo de toda a sua natureza, no entanto, ele teria que estar em algum “lugar”. Conceber esse lugar como uma realidade concreta, implicaria colocá-lo num “sítio” atemporal e a-espacial. Só assim se poderia justificar a sua natureza onde tudo é uma só coisa. Mas onde estaria esse “lugar” atemporal e a-espacial? Ao olharmos para a história do nosso universo seguindo os compêndios deixados pela compreensão que a ciência fez do mesmo, constatamos que realmente existiu esse lugar. É aquilo que chamamos de singularidade, ou seja, o momento anterior ao Big-Bang. Esse era um “lugar” atemporal e a-espacial. Poderíamos, desse modo, tomá-lo como sendo a morada das almas: que outro lugar se não esse para justificar aquilo que contraria todas as leis conhecidas, como a existência de uma alma, que a própria singularidade onde nenhuma lei do universo físico funciona. Mas isso colocar-nos-ia um problema. É que esse momento deixou de existir após o Big-Bang, e o mundo espiritual é eterno. Para resolver este pequeno paradoxo, teríamos que ver o nosso universo como sendo um lugar quadrimensional. Não só as três dimensões do espaço, mas igualmente a dimensão do tempo. Assim, ao tomarmos o tempo como uma dimensão, este passaria a ser um todo e não uma parte. Num universo tridimensional o tempo apenas existe no momento que dele temos consciência, sendo o passado algo que deixou de existir e o futuro algo que ainda está por acontecer. No entanto, num universo quadrimensional, o tempo é por si só uma dimensão; passado, presente e futuro são em simultâneo um único momento. Ou seja, da mesma forma que quando eu me desloco no espaço o lugar que ficou para trás não deixa de existir, mesmo que eu já lá não esteja, quando eu me desloco no tempo num universo quadrimensional esse momento passado também não deixa de existir, continuando presente. Para uma melhor compreensão desta ideia vou materializa-la num modelo. Imaginem, então, que o universo é uma esfera onde o tempo é a latitude e o espaço a longitude. Assim, o Polo Norte é o momento anterior ao Big-Bang, esse lugar atemporal e a-espacial. Ao avançarmos na latitude que é o tempo, constatamos que o universo expande-se, atingindo o momento de expansão máxima no equador, começando depois a convergir sobre si mesmo até atingir o Polo Sul que é o momento posterior ao Big-Crunch. Ao olharmos para a esfera reparamos que esta já existe como um todo, pois trata-se de um modelo quadrimensional. Embora apenas estejamos conscientes num determinado ponto “geográfico” dessa esfera, o Polo Norte que para nós é passado e o Polo Sul que para nós é futuro, são em simultâneo um único momento dessa mesma esfera. Assim, esse momento atemporal e a-espacial não deixou de existir com o Big-Bang, já que o tempo passou a ser uma dimensão, e desse modo, todo ele está presente com o espaço numa só unidade: a esfera. É claro que ao tomarmos a esfera como uma unidade espácio-temporal, esta deixa de ter princípio e fim. O Polo Norte, por exemplo, é apenas o princípio do universo para aqueles que se encontram na “superfície” da esfera, já que na realidade esse princípio não existe. Se, por exemplo, nos posicionarmos no Polo Norte e deslocarmo-nos até ao Polo Sul, constataremos que ao chegarmos ao Polo Sul o universo não termina, já que continuamos a viajem pelo meridiano contrário de volta ao Polo Norte. Assim, cada um dos pólos é em simultâneo o princípio e o fim do universo, anulando-se mutuamente. Temos, desse modo, um universo que começa e acaba unicamente aos olhos daqueles que estão na “superfície” da esfera, mas que é eterno aos olhos daqueles que o observam de fora, ou de dentro, sendo esse “dentro” a própria singularidade. Contudo, ao olharmos para a esfera podemo-nos interrogar sobre o que existe dentro desta. É que sendo o espaço unicamente a circunferência que contorna a esfera e não o círculo que iria preenchê-la, resta saber o que existe no seu interior. É aqui que entra a teoria dos universos paralelos. Ou seja, dentro da esfera, tal como aquelas bonecas Russas que têm dentro de si uma boneca mais pequena, existem outros universos. Partindo do princípio, apenas para simplificar, que o nosso universo encontra-se na crosta da esfera, este seria um universo de x escolhas, e o universo imediatamente interior seria um universo de x-1 escolhas. À medida que nos deslocássemos na direcção do centro da esfera, constataríamos que os universos tornar-se-iam menos complexos, mais simples e perfeitos. Ao chegarmos ao centro da esfera estaríamos num universo de zero escolhas, ou seja, a própria singularidade. Esse novo vector, aquele que vai desde a superfície da esfera até ao centro, seria aquilo que poderíamos considerar a quinta dimensão e que nos permitiria, tendo como base o próprio modelo, viajar pelo universo instantaneamente, pois fá-lo-íamos sem recorrer à longitude e à latitude (espaço-tempo), mas apenas ao novo vector. E sem o espaço e o tempo a condicionar os nossos “movimentos”, tudo tornar-se-ia um só momento e um só lugar. Desse modo, se eu posicionar-me no Polo Norte que é a singularidade, e deslocar-me até ao centro da esfera passando pelos Pólos Norte dos outros universos, estaria a fazê-lo sem sair do mesmo lugar, já que continuaria na singularidade. Logo, esse momento atemporal e a-espacial não existiria apenas no Polo Norte e no Polo Sul do nosso universo, mas em todo o eixo que iria desde o Polo Norte até ao Polo Sul, passando pelo centro da esfera. E seria esse eixo, atemporal e a-espacial, que existe desde sempre e que sempre existirá, que serviria de morada às almas. Assim, respondendo directamente à pergunta: ”Onde é que se situa o mundo espiritual?”, eu diria que este situa-se no eixo do universo. Mas como “situar” implica a existência de espaço e de tempo, eu corrigiria, dizendo: O mundo espiritual É no eixo do universo.Tendo chegado a esta conclusão, no contexto do modelo apresentado, outro tipo de considerações poderiam ser feitas sobre o mesmo. Se tomarmos o mundo espiritual como sendo o “lugar” onde reside a consciência de Deus, então Ser no eixo do universo é Ser em todo o universo, já que não existindo espaço-tempo a separar o eixo da superfície, mas apenas a quinta dimensão, residir nesse lugar teria como resultado estar em toda a parte, ou seja, ser omnipresente em relação à esfera. Outra consideração que se poderia fazer sobre o mesmo modelo seria as dos buracos negros, que são vistos, também eles, como sendo singularidades, e que neste caso ligariam os universos ao próprio eixo, funcionando como um portal para o mundo espiritual.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Crónicas Semanais no Blog Nemo Dolphin

UMA BREVE DISSERTAÇÃO
Ao longo dos tempos fizemos de Deus um parceiro de lutas, de guerras; um partidário de religiões, senhor único das nossas conveniências... como se Deus alguma vez pudesse ter religião! Muitos esqueceram-se da essência de tudo aquilo que sempre foi transmitido ao homem e que lhes falava de amor e não de sangue, de compaixão e não de violência, de humildade e não de soberba. Negaram a verdade que se encontra espalhada pelos povos do mundo, julgando que esta era património de uns quantos. Embora a verdade seja uma construção pessoal, motivada pelo empenho que cada um colocar nessa procura, em cada cultura encontraremos partes de um puzzle que cada um de nós deverá construir em si mesmo. E é no juntar de cada pedaço desse puzzle, sem nos cristalizarmos nele, que tudo ganhará um verdadeiro significado para nós como seres espirituais que somos, compreendendo que não podemos construir essa obra se nos fecharmos em nós próprios. Ignorar os outros na diversidade dos seus caminhos, é julgar que a peça que temos é o puzzle por inteiro; iludidos nos encontraremos se o fizermos, pois é apenas na totalidade das peças que poderemos um dia reconhecer a imagem que nelas se encontra oculta. Saber olhar para os demais é crescer em nós próprios no reconhecimento que todos são parte de uma mesma história. É imaginar cada pessoa como membros de um só corpo, partes importantes na totalidade desse corpo que sem o todo ficaria privado da plenitude da sua existência.
Mas essa diversidade confunde-nos. Não compreendemos, por exemplo, porque é que sendo Ele um só, muitas são as religiões e as interpretações que Dele fazemos. O que ignoramos, no entanto, é que Deus espelha-se em cada cultura pelos olhos daqueles que o tentam compreender, falando numa linguagem diversa mas não contraditória. Só vê contradições quem não compreende as particularidades de cada povo, de cada cultura; do olhar diferente de quem observa o mundo com outros olhos. Se eu vos escrevo em português é porque essa é vossa língua, mas se o mesmo quisesse dizer a um chinês, certamente que teria que o fazer numa língua diferente, mantendo, no entanto, o mesmo conteúdo. Se vos escrevo nestes termos é porque todos vocês são adultos, mas se o mesmo quisesse dizer a uma criança, certamente que teria que usar de outras palavras. As religiões do mundo são apenas isso mesmo: palavras diferentes de uma mesma mensagem.
Se de uma forma análoga tomarmos as palavras de Deus como sendo uma melodia, então nesta encontraremos a sua mensagem, independentemente do povo que a interpreta. Contudo, consoante a cultura de cada povo assim será a compreensão que cada um fará dessa mesma melodia. Enquanto um Português interpretá-la-á sobre a forma de um Fado, um Brasileiro fá-lo-á sobre a forma de um Samba. Enquanto um Argentino interpretá-la-á sobre a forma de um Tango, um Austríaco fá-lo-á sobre a forma de uma Valsa. E embora os instrumentos, os vários ritmos e a alma colocada nessas interpretações seja diferente, na sua essência todos tocam a mesma melodia. Quando Deus fala aos homens através de profetas, através das entidades espirituais que se manifestam como tutores da humanidade, ele fá-lo com o intuito de fazer passar um conhecimento que ajude o homem a deixar os caminhos da infantilidade para se tornar, de uma vez por todas, adulto responsável diante do mundo e do universo. Mas Deus não pode caminhar pelas nossas pernas, pois se o fizesse nunca cresceríamos. Temos que ser nós a dar esses passos na vontade de sermos melhores; de aprendermos, com o tempo, a deixar os caminhos de uma adolescência rebelde, e procurar construir as bases de uma existência adulta e responsável.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Crónicas Semanais no Blog Nemo Dolphin

PENSAMENTO DO DIA
Porque é que só poderemos investir em desgraça e não em coisas boas, sem no entanto precisarmos de desgraça como estímulo para isso ?
Afinal :
PACIÊNCIA = PAZ + CIÊNCIA ( A ciência da PAZ ).

sábado, 23 de maio de 2009

Crónicas Semanais no Blog Nemo Dolphin

DEUS - AMOR

Introdução

Para começar, gostaria de partilhar convosco um texto que escrevi há cerca de nove anos. Surgiu-me num daqueles momentos raros de inspiração, sem que eu tivesse tempo de pensar cada palavra. Muitas foram as vezes que me interroguei sobre a origem do texto. Nunca pus de parte a hipótese deste ter sido inspirado por alguém, embora não tenha aprofundado tal possibilidade. Vejo as palavras como o vento, libertas de amarras ou obstáculos, senhoras de si mesmo sem donos nem patronos. O texto, escrito por mim ou por alguém através mim, vale pelo conteúdo que cada um de vocês, individualmente, encontrar em cada palavra. E quando assim acontece, estas deixam de ser daquele que as disse, para passarem a ser daquele que as interpreta; deixam de ser as palavras daquele que as escreveu, para passarem a ser as mesmas palavras que já existem dentro de cada um de nós. Não é por isso importante saber a fonte da sua proveniência, pois se as tomarmos como nossas, na compreensão que delas fizermos, então é porque também nos pertencem.
Deus - Amor
Muitos de vós interrogai-vos sobre a natureza e origem de Deus. Quem é afinal esse ser que nos motiva na fé de tantas religiões? Digo-vos que Deus não é uma ideia nem tão pouco uma teoria. Se o procurarmos na racionalidade dos nossos próprios preconceitos, nada poderemos vivenciar. Deus não é para ser teorizado, mas sim interiorizado na fé que soubermos construir através da intuição: esse murmúrio eterno que nos chega sem nunca nos ter deixado. Se procurais Deus, deveis olhar para vós próprios, compreendendo que em nós estão todas as respostas. Mas quem é Deus, afinal? Digo-vos que ele é a água que corre em cascata nos riachos da montanha, é as árvores que se curvam delicadamente sobre a brisa das planícies, dando voz ao vento que nelas se torna presente. Ele é o voo suave dos pássaros, a voz cristalina de uma manhã deliciosamente pronunciada na saudade de um tempo onde tudo era perfeito. Ele é a luz espreguiçada de um sol que nos alimenta, a espuma rebelde de um mar tornado consciência nas memórias de um futuro que se pressagia equilibrado. Ele somos nós; cada um no olhar contrário de todos os outros. Conhecer Deus é sabê-lo na natureza de toda a criação, compreendendo que todos somos um só. Um único ser, uma mesma consciência. Contudo, a verdade por Ele transmitida não pode ser martelada na mente do Homem, pois este nada compreenderá. Tem que nascer na interioridade de cada um, motivada pela força concreta de um caminho por nós iniciado. De nada serve todo o conhecimento que possamos adquirir se em nós não existir a vontade necessária para lhe dar forma e conteúdo. É que a virtude não está na verdade, mas no empenho que fizermos para alcançá-la. Apenas quem souber segurar as palavras na sua essência mais profunda, cultivando-as como sementes de uma árvore por germinar, poderá verdadeiramente compreender todos os ensinamentos que lhe são propostos. E estes, como muitos já sabem, resumem-se a um único mandamento: Amar a todos como a nós próprios. Se compreendermos que na existência contrária de vidas que não a nossa, tudo se harmoniza numa mesma identidade, então facilmente poderemos aceitar a ideia de que essas vidas, afinal, não são assim tão contrárias. Todos somos seres humanos e nisso nada nos distingue. Assim, deixar de amar alguém é não amar uma parte nós próprios, já que essas pessoas também são UM connosco. É dizer que eu amo a minha mão direita mas não amo a minha mão esquerda, e se eu não amo a minha mão esquerda então não posso amar o corpo por inteiro. Iludam-se aqueles que julgam que é possível amar uma mão e não amar a outra, pois se é verdadeiro amor que sentimos pela primeira, forçosamente teremos que amar a segunda caso contrário nada sabemos do amor. O amor, no entanto, não pode ser repartido segundo as nossas necessidades. Ele é único na sua essência, pois nada existe para além dele. É como a voz da mãe que chega ao útero vindo de fora; um murmúrio suave que nos chega sem nunca nos ter deixado, que nos transporta sem nunca nos ter levado. É como a voz do vento que traz até nós as fragrâncias da nossa terra, como o serpentear do ribeiro que nasce na cascata da montanha e que nos faz recordar o futuro de uma existência onde nos tornaremos um só com Deus. Digo-vos que o amor é a razão que motiva todo o universo, a força vital inerente a toda a criação. É único, indivisível. É isso que Deus espera de nós. Que saibamos amar a todos, pois só assim é que verdadeiramente poderemos senti-Lo, compreendê-Lo e Sê-Lo.

sábado, 16 de maio de 2009

Crónicas Semanais no Blog Nemo Dolphin


Apresentação

Neste conjunto de textos que partilho convosco, gostaria de começar por me apresentar na postura de quem nada vos quer impor. Irei partilhar estes textos convosco com o intuito de vos fazer chegar um conhecimento que apenas o será se cada um de vocês assim o entender. Nada deve ser forçado, e muito menos a verdade, seja ela qual for. Em assuntos relacionados com a nossa espiritualidade, o verdadeiro conhecimento é aquele que cada um de nós, individualmente, compreender das coisas do mundo como um espelho a nós próprios, transportando-o para os outros na sinceridade de um gesto que não deve ser apresentado como uma verdade absoluta ou universal, mas apenas como a verdade daquele que partilha esse conhecimento sem nada querer forçar no desejo de convencer os outros do que quer seja. A atitude contrária seria privar cada pessoa de amadurecer em si mesmo, de construir pelo seu próprio empenho essa mesma espiritualidade. Aceitar de uma forma passiva as verdades emprestadas de outros é hipotecar a nossa inteligência e a nossa liberdade, pois todos nós somos capazes de construir, de compreender e ser tudo aquilo que os outros são nessa mesma dimensão espiritual, criando em nós os caminhos do nosso próprio destino. Crescer espiritualmente é, desse modo, recusar tudo aquilo que é servido de bandeja. É deixar o conforto do sofá onde nos acomodámos às verdades dos outros e empreender em nós próprios essa marcha que nos possibilitará pensar cada gesto de um mundo tão diverso; interpretar cada palavra sem nos sujeitarmos a ela de uma forma cega e obcecada, interiorizando em liberdade todos os sons, melodiosos ou dissonantes, deixados pelas fragrâncias de uma existência que tudo nos tem para ensinar, não porque alguém o disse, mas porque descobrimos em nós que assim era. Que todo o conhecimento formal que possamos adquirir seja unicamente um instrumento de trabalho na construção dessa verdade, mas que não seja confundido com a própria verdade. É que esta não é feita sobre aquilo que temos, mas sobre aquilo que somos. Estas palavras que partilho convosco, assim como todas as outras que poderão encontrar nas mais variadas religiões ou filosofias, são apenas o martelo e o cinzel, e essa é a sua importância, mas a verdade é a pedra que cada um de vocês for capaz de esculpir com esses instrumentos. Por isso, procurem a verdade em vós próprios, na compreensão que fizerem do mundo pelos vossos olhos e não pelos olhos de terceiros. E depois partilhem com os outros essa graça sem que nada seja imposto na vontade de os convencer das vossas certezas, pois estas apenas são universais na dimensão interior daquele que as interpreta. Lembrem-se que a vossa verdade é, para os demais, apenas instrumentos de trabalho que cada um poderá usar, ou não, na construção de si mesmo.
Em relação aos textos, gostaria de vos dizer que não existem autores de ideias mas apenas pessoas que as materializam. Da mesma forma que um pintor ao dar expressão a uma árvore não poderá nunca ser considerado como o autor da árvore por ele observada, mas apenas da imagem representada dessa mesma árvore, as ideias, também elas, não pertencem àquele que as escreve; elas já existem como potencial a ser realizado e sempre existirão independentemente de quem as interpreta. Considero-me, por isso mesmo, um pintor de ideias, materializando em palavras o resultado de uma observação interior e muito particular. Os textos são, por isso mesmo, um esboço dessa verdade maior, e não a verdade em si mesmo. São a representação de uma sabedoria pessoal, válida como tal apenas na dimensão interior de mim mesmo. A cada um de vós compete-vos criar o vosso próprio esboço, usando os demais, incluindo este que partilho convosco na forma de textos, apenas como fonte de inspiração e nunca como a forma final e definitiva da imagem que esse mesmo esboço pretende representar. Que possam construir a vossa própria sabedoria ao esboçarem os contornos dessas mesmas ideias sem se subordinarem às linhas instituídas de quem não compreendeu que uma obra de arte apenas o é no olhar daquele que a interpreta e nunca como uma verdade absoluta que se impõe. A obra de arte é a vossa verdade pessoal, essa imagem esculpida no esforço de quem tentou compreender a vida pelos seus olhos. Interpretar a árvore que temos diante de nós não é, por isso mesmo, comprar um quadro que contenha essa mesma árvore, por mais valioso que este seja, mas tentar pintá-la na compreensão que dela fizermos.

Crónicas Semanais no Blog Nemo Dolphin

Olá a todos...
Nestas próximas semanas irei partilhar convosco alguns textos que escrevi há já algum tempo...
Espero que gostem e comentem... Partilhem as vossas ideias também...